sábado, 17 de setembro de 2011

Hilda, a mais subversiva de todas



Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
vestindo, despindo e arrastando amor,
infância, sois e sombra.
Vou dizer coisas terríveis a gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me
(em todos os lugares o mundo se comprime.
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio..)
Ah, triste amor desperdiçado, desesperançado amor,
serei eu só... morrendo a cada instante, me perdendo?
Iniciei mil vezes o diálogo.
Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me.

Sendo quem sou em nada me pareço..
Sendo quem sou, não seria melhor ser diferente
e ter olhos a mais, visíveis, úmidos
ser um pouco anjo e duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo..
Cansam-me as esperanças renovadas
e o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque exige posse e pranto
sal e adeus.

Se te pareço noturna e imperfeita
olha-me de novo.
Com menos altivez e mais atento.
*Que aí terás certeza


(autora: Hilda Hilst) - *inclusão: tássica f.

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